Painel: o futuro das comunidades

28 de agosto de 2011

A exemplo dos outros dois dias de festival Back2Black, a abertura de hoje ficou a cargo das discussões sobre temas inerentes à cultura negra. Para falar sobre “O futuro das comunidades”, o público ouviu e fez perguntas para o holandês Nanko van Buuren (fundador do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social – IBISS), o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares e Sueli Carneiro (ativista do movimento negro brasileiro), com a mediação de Paulo Lins (autor do livro “Cidade de Deus”).

O primeiro a expor suas ideias foi o holandês, cujo instituto atua em 11 áreas  de risco no Rio de Janeiro. Como sabemos, ainda falta estrutura nas comunidades e é necessário investir em educação, saúde e segurança para que a realidade dos cidadãos tenha mudanças significativas. Para Van Buuren, com o advento das UPPs, a situação ainda não mudou muito, principalmente porque o Estado é representado por militares, que não inspiram confiança na população, devido aos inúmeros casos de violência contra inocentes partindo de policiais.

Sobre isso, Luiz Eduardo Soares explicou que, apesar do projeto estar no caminho certo, ainda é preciso mudar a formação e, com isso, a cultura institucional da nossa polícia, para que as pessoas não temam, e sim confiem nos agentes.

Para ele, há ainda o problema da criminalização da pobreza, pois estudos indicam que os jovens pobres e negros sofrem preconceito e são equivocadamente relacionados à criminalidade apenas por apresentarem estas características. Além disso, ainda ligado à violência, há o problema da ressocialização de presos, que enfrentam dificuldades na hora de voltar à sociedade e consequentemente ao mercado de trabalho. O IBISS, em que trabalha Van Buuren, tem projetos que fazem a ponte entre ex-funcionários do tráfico e empresas dispostas a colaborar no processo de ressocialização, entre outras vertentes de atuação.

Luiz Eduardo apresentou dados de que os jovens de 18 anos negros tem 2,4 anos de escolaridade a menos do que os brancos da mesma faixa etária, mesmo nível que já se apresentava há décadas. Mesmo assim, ele defendeu que o país tem mudado, sim, mas precisa de menos corrupção em todos os setores para que haja melhorias significativas nas estruturas.

Sueli Carneiro, que é ativista do movimento negro brasileiro, abriu seu discurso no painel lembrando o discurso histórico de Martin Luther King, há exatamente 48 anos, neste mesmo dia 28 de agosto. Ela defendeu, em vários pontos da discussão, que a cultura negra tem sido vista apenas por um lado folclórico, nas suas formas mais arcaicas, e que o que ela influencia na contemporaneidade é a parte que foi “embranquecida”. Ela deu exemplos de expoentes da cultura, como Machado de Assis e  o geógrafo Milton Santos, que foram absorvidos como “cultura brasileira” e não “cultura negra”.

Questionada sobre o preconceito no Brasil, Sueli explicou que as pessoas brancas são beneficiárias do racismo, mesmo que não assinem embaixo. Para ela, só haverá democracia racial no país quando confessarmos que ele existe, sim. Apenas assumindo isso, poderemos seguir adiante e garantir uma sociedade justa e livre de preconceitos. Parafraseando Martin Luther King, concluiu: “Eu tenho um sonho de que este país seja capaz de construir uma verdadeira democracia social.”

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