Debate: Democratização, Não Violência e Mídias Sociais

26 de agosto de 2011

O Festival Back2Black abriu os trabalhos com um debate sem fronteiras. Na Estação Leopoldina, no Rio de Janeiro, a mediadora Alexandra Lucas Coelho e Jamila Raqib, diretora executiva do Albert Einstein Institution, e o público conectaram-se, em tempo real, com Wael Ghonim, direto de Dubai. O tema era Democratização, Não Violência e Mídias Sociais e disso os debatedores entendem.

Conferência: Democratização, não violência e mídias sociais Wael Ghonim (via satélite) · Jamila Raqib Mediador: Alexandra Lucas Coelho

Ghonim foi um dos principais líderes das manifestações populares que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no Egito. Ele trabalhava para o Google, em Dubai, quando soube da morte do jovem Khaled Said pela polícia de Alexandria, em 2010, e criou então a página no Facebook We Are All Khaled Said (Somos todos Khaled Said, em português), que ganhou a adesão de milhares de pessoas. Com o uso das mídias sociais, ele convocou uma manifestação na Praça Tahrir, centro do Cairo, e por fim, mais de 12 milhões foram às ruas e tiraram o ditador Mubarak do poder.

Por causa do fuso horário, Ghonim começou a responder as questões propostas pela mediadora. ‎”A intenção era oferecer uma alternativa para informar as pessoas, dar voz a elas e romper o medo”, disse Ghonim sobre a criação da página no Facebook. ‎”Um evento foi criado para ver se conseguiríamos seguir o exemplo da Tunísia, que tinha derrubado o regime opressor de Ben Ali”, explicou.

Jamila Raqib é diretora executiva da Albert Einstein Institution (órgão fundado por Gene Sharp), especialista em estratégias e métodos de resistência não violenta. Ela foi responsável por supervisionar o minucioso trabalho de tradução do principal livro de Sharp, “Da Ditadura à Democracia”, para mais de 25 idiomas. Para ela os desafios estão em, não só enfraquecer uma ditadura, mas fortalecer o povo, para que ele tenha condições de resistir e, assim, se dê início a uma democracia durável, protegida contra golpes de estado.

Jamila reforçou também a importância de uma revolução sem um único líder, como ocorreu na Tunísia e no Egito e Ghonim completou: “o líder é a causa”. Apesar de ele ser um dos rostos da revolução egípcia, explicou que o objetivo em comum tinha inúmeros facilitadores.

Ghonim defende que a contribuição nas redes, a partir do modelo 2.0 de web colaborativa, é base da ONG que ele criou, pois, se um conteúdo faz sentido para uma pessoa, várias podem compartilhar e difundir o pensamento. Este é um exemplo do que Jamila entende como ações não violentas, que consistem na capacidade de discordar. “A não cooperação corta as forças do opressor, que se baseia na obediência”, explica.

Ela opinou também sobre a intervenção de estrangeiros na luta um país, dizendo que, muitas vezes, outros governos não entendem completamente a realidade de um país e só a própria sociedade saberia se organizar para mudar sua situação.

Para Ghonim, a colaboração nas mídias sociais roubou o microfone e os veículos tradicionais não são mais a única voz. Jamila concorda, mas reforça que as mídias devem ser usadas, mas as pessoas não devem confiar apenas nelas, pois há a monitoração desses meios por parte dos governos, em todo o mundo. Sobre a onda de atentados em Londres, no mês de agosto, em que as autoridades cogitaram controlar as redes sociais, e a revolução no Egito, onde isso de fato ocorreu, Ghonim explica que a atitude apenas demonstra que os governos temem a voz que a sociedade tem.

Para encerrar, Wael Ghonim afirmou que as regras do jogo estão mudando e a bola da vez está nas mãos dos cidadãos. “A mídia mainstream não é mais mainstream”, defendeu.

 

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